A possibilidade de restrição no mercado de fertilizantes, que vai além de preços elevados e inclui risco de falta física de produto, já começa a alterar o comportamento de produtores e preocupa a indústria para a próxima safra. Em evento da Argus Media realizado nesta segunda-feira (6), em São Paulo, representantes do setor relataram sinais simultâneos de retração da demanda, pressão de custos e limitações na oferta.
“Talvez não tenha produto mesmo”, afirmou Felipe Coutas, country manager da Itafos. Segundo ele, “estamos ouvindo o agricultor dizendo que não vai adubar. Não é nem uma questão de preço, não vai usar”.
A decisão no campo tem sido influenciada pela piora na relação de troca. Dados apresentados no evento indicam que o pacote de NPK pode consumir cerca de 40 sacas por hectare, enquanto a produtividade média gira em torno de 67 sacas. Em ciclos anteriores, como em 2022, preços mais altos das commodities permitiam maior absorção desses custos, o que não se repete no cenário atual.
Ao mesmo tempo, o setor relata uma mudança relevante do lado da oferta. Pela primeira vez em décadas, há preocupação não apenas com preços elevados, mas com a possibilidade de indisponibilidade física de fertilizantes.
Um dos principais fatores é a restrição global de enxofre e ácido sulfúrico, insumos fundamentais para a produção, especialmente de fosfatados.
O enxofre é um subproduto da indústria de petróleo e gás, e sua oferta depende diretamente do nível de atividade desse setor. Após um período de leve superávit até 2023, o mercado entrou em déficit em 2024 e 2025, com tendência de aprofundamento em 2026.
Esse quadro é agravado por fatores geopolíticos e estruturais. Parte relevante da oferta global está concentrada em regiões de conflito ou em rotas logísticas sensíveis, como no Oriente Médio. Além disso, limitações operacionais, como a dificuldade de interromper e retomar atividades em refinarias, podem prolongar eventuais restrições.
No Brasil, a dependência desses insumos se reflete diretamente nos custos. Segundo Coutas, o limite de repasse de preços no setor agrícola é mais restrito do que em outros segmentos, como a indústria química.
Nayara Piloto, gerente comercial da EuroChem, também afirmou que o cenário já se traduz em paralisações pontuais de plantas industriais do setor no Brasil, seja pela falta de insumos, seja pela perda de viabilidade econômica. “Muitas vezes vale mais a pena vender o sulfúrico do que produzir um fosfatado de baixa concentração”, disse.
Além das restrições de insumos, gargalos logísticos também entram na equação. Segundo Piloto, há limitações na infraestrutura portuária e de armazenagem, especialmente para produtos como enxofre e ácido sulfúrico, que exigem tancagem específica. A combinação desses fatores pode limitar a produção, sobretudo de fertilizantes de menor concentração.
Do lado financeiro, o aumento do valor absoluto dos fertilizantes elevou a necessidade de capital de giro. Segundo relatos do setor, operações que antes demandavam cerca de US$ 8 milhões podem hoje exigir até US$ 40 milhões, restringindo o acesso a crédito.
Roberto Barretto, diretor comercial da Itafos, afirmou que, apesar de ainda haver produto disponível, a demanda está retraída. “Quando você repassa os aumentos de custo, não vê iniciativa de compra. O produtor diz que vai esperar até a última hora ou migrar para um produto alternativo, ou até não aplicar fósforo em áreas antigas”, disse. Ele acrescentou que cerca de 13,8% do crédito no mercado já apresenta atraso superior a 90 dias.
Diante desse cenário, a indústria avalia ajustes no portfólio e nas estratégias de produção, enquanto produtores consideram mudanças no manejo. Entre as alternativas discutidas estão o uso de fosfato natural reativo, que não depende diretamente de ácido sulfúrico, fertilizantes de menor concentração, remineralizadores e a adubação mais direcionada. No entanto, essas opções têm limitações, seja por escala, seja por impacto potencial na produtividade.
“Você não depende do ácido sulfúrico, mas não há volume suficiente para atender o Brasil todo”, afirmou Coutas sobre o fosfato natural reativo. Já Piloto destacou que a migração para produtos de menor teor deve ocorrer, embora isso implique maior volume aplicado para alcançar o mesmo resultado.
No campo, também há relatos de redução na adubação, em alguns casos, cortes de até 25% em aplicações de fosfato, além do aproveitamento de nutrientes já presentes no solo e até mudanças no mix de culturas, como a substituição de milho por sorgo em determinadas áreas.
Apesar disso, a expectativa é de manutenção ou até expansão da área plantada, com incertezas concentradas na produtividade. “A área deve se manter, mas dificilmente vamos atingir o volume de produção esperado”, avaliou Coutas.
A avaliação do setor é que o momento combina restrições de oferta, preços elevados e limitações de crédito, exigindo ajustes ao longo da cadeia. “Qual a solução? Não há. Vai ser um mergulho de apneia”, disse Coutas, ao se referir ao período até uma possível normalização do mercado.


Você precisa fazer login para comentar.