Acre

MP-AC investiga situação do acervo de Chico Mendes na Biblioteca da Floresta: ‘Acervo pessoal não faz parte da denúncia’, diz viúva

Viúva do ambientalista esclarece que itens pessoais estão sob guarda da família e que investigação se refere a outro material

A medida foi instaurada por meio de portaria publicada no Diário Eletrônico do MP-AC e prevê uma investigação inicial com prazo de até 90 dias. Foto: captada 

O Ministério Público do Acre (MP-AC) instaurou um procedimento para apurar onde está e em que condições se encontra o acervo cultural de Chico Mendes que integra o patrimônio da Biblioteca da Floresta Marina Silva, em Rio Branco. A investigação preliminar tem prazo de até 90 dias e foi motivada por indícios de que o material, considerado patrimônio cultural brasileiro, possa necessitar de atenção quanto à sua preservação.

Em entrevista ao g1, a viúva de Chico Mendes, Ilzamar Mendes, afirmou que foi ouvida pelo MP e esclareceu que o procedimento não se refere ao acervo pessoal do ambientalista, que permanece sob guarda da família. “O acervo pessoal do Chico é da família e continua com a família. O que está sendo apurado é outro material, que não é o acervo pessoal do meu marido”, disse.

O objetivo da apuração do MP é garantir que o acervo seja preservado e protegido, conforme previsto no artigo 129 da Constituição Federal. Foto: captada 

Ela acrescentou que a casa de Chico Mendes, em Xapuri, segue aberta à visitação. A investigação do MP-AC busca verificar especificamente o conjunto documental e histórico vinculado à Biblioteca da Floresta, cujo paradeiro e estado de conservação estão sob análise.

Fundação de Cultura diz que não guarda acervo de Chico Mendes e que material é da família

MP-AC investiga situação de itens ligados ao ambientalista; filha fala em “apagamento cultural” e defende preservação da memória. Foto: captada 

A Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM) informou ao Ministério Público do Acre (MP-AC) que não possui sob sua guarda o acervo original de Chico Mendes. Segundo o diretor de Patrimônio Histórico da fundação, Ítalo Facundes, o material é particular e permanece com a família, sem registro formal de entrega à instituição. Itens como livros, fotografias e painéis que já foram expostos em espaços da FEM não fazem parte do acervo pessoal do ambientalista.

O MP-AC instaurou um procedimento para apurar o paradeiro e as condições de preservação do acervo vinculado à Biblioteca da Floresta Marina Silva, considerado patrimônio cultural. A investigação tem prazo de até 90 dias e visa assegurar a proteção desse legado, conforme determina a Constituição.

Angela Mendes, filha de Chico Mendes e presidenta do Comitê Chico Mendes, afirmou que a investigação partiu de uma preocupação com o que chamou de “apagamento cultural” no estado. Foto: captada 

Angela Mendes, filha de Chico Mendes e presidenta do Comitê Chico Mendes, afirmou que a investigação partiu de uma preocupação com o que chamou de “apagamento cultural” no estado. “Externalizamos a nossa preocupação com a ausência de espaços de memória ligados ao meu pai. A Biblioteca da Floresta tinha uma exposição permanente sobre ele, e não podemos permitir que essa memória se apague”, disse.

Ela destacou que a biblioteca cumpria um papel fundamental na preservação da história e da cultura dos povos tradicionais do Acre, oferecendo pesquisa, atividades lúdicas e exposições. A promotoria especializada em Patrimônio Histórico e Cultural ficará responsável pelo acompanhamento do caso.

O objetivo da apuração do MP é garantir que o acervo seja preservado e protegido, conforme previsto no artigo 129 da Constituição Federal. Foto: captada 

Chico Mendes e a casa

Seringueiro, ambientalista e sindicalista, Chico Mendes se tornou líder dos trabalhadores de seringais e ganhou notoriedade mundial ao defender a preservação do meio ambiente, melhores condições de vida aos trabalhadores amazônicos e o extrativismo como alternativa a um modelo predatório. “Sou um seringueiro, meus companheiros vivem da floresta há 130 anos, aproveitando a sua riqueza sem destruí-la. A Amazônia possui os maiores recursos biológicos do mundo”, discursou Mendes ao receber, dentre vários reconhecimentos, o Prêmio da Sociedade para um Mundo Melhor, recebido nos Estados Unidos, em 1987.

A filha de Chico Mendes e presidenta do Comitê Chico Mendes, explicou que o procedimento foi motivado por uma preocupação antiga. Foto: captada

O município de Xapuri está localizado às margens do rio Acre, na confluência com o rio Xapuri, a 180 km de distância da capital Rio Branco. O surgimento da cidade está associado ao ciclo da borracha, entre o final do século XIX e início do XX, tendo Xapuri se tornado principal entreposto acreano no comércio de látex. Na segunda metade do século XX, o governo brasileiro incentivou projetos desenvolvimentistas para a região amazônica.

No estado do Acre, levas migratórias assentaram fazendas, nas áreas em que até então já viviam os seringueiros. O impasse entre seringueiros e fazendeiros culminou na fundação do sindicalismo no Xapuri, tendo Chico Mendes se tornado principal opositor da expansão dos fazendeiros. Em 1988, Mendes foi assassinado aos 44 anos, em Xapuri, na casa que ainda hoje guarda o mesmo feitio e objetos daquela época, como mobiliário de madeira e pote de barro.

Casa Chico Mendes, em Xapuri. O legado de Chico Mendes hoje é mantido pelos filhos, por meio do Comitê Chico Mendes e também outras ações. Foto: captada 

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Marcus José