Daniella Zambrano, correspondente da CNN na Venezuela, descreve clima de calma nas ruas, mas com população apreensiva sobre processo de transição política no país
A correspondente da CNN na Venezuela, Daniella Zambrano, relatou que o sentimento predominante entre a população venezuelana é de incerteza após a saída de Nicolás Maduro, retirado à força de seu quarto por forças especiais dos Estados Unidos durante uma operação militar no último sábado (3).
Diretamente da ilha de Margarita, no estado de Nueva Esparta, no oriente da Venezuela, a repórter descreveu um cenário de aparente normalidade nas ruas, bem diferente do dia anterior. “A situação hoje é que as ruas estão em calma e um panorama muito diferente a ontem. Ontem nós vimos longas filas nos postos de gasolina, no supermercado, nas drogarias, as pessoas estavam comprando tudo por temor ao que podia passar nos próximos dias“, explicou.
Segundo a correspondente, os voos internos foram retomados depois que os Estados Unidos levantaram as restrições, e as longas filas em postos de gasolina e supermercados já não são observadas. No entanto, o clima de apreensão permanece. “O sentimento é de incerteza. As pessoas não sabem como vai ser essa transição que anunciou Donald Trump“, afirmou Zambrano.
População dividida sobre transição política
A jornalista destacou que há uma divisão de opiniões sobre o processo de transição política. Ela mencionou que o governo americano indicou conversações com Delcy Rodríguez, vice-presidente venezuelana, mas isso gerou desconfiança em parte da população. “Para as pessoas, segue sendo o mesmo governo do Nicolás Maduro. Ela é do Partido Socialista Unido de Venezuela, então as pessoas ficaram surpreendidas, esperavam uma mudança brutal do governo”, relatou.
Por outro lado, alguns venezuelanos consideram que essa pode ser uma estratégia para garantir uma transição tranquila. Zambrano observou que os cidadãos que desejam mudanças no governo estão resguardados em suas casas, com medo de expressar seus verdadeiros sentimentos, lembrando da repressão ocorrida após as eleições de 2024, quando mais de 2 mil pessoas foram detidas.
Comunicação e informação limitadas
A correspondente também destacou as dificuldades de acesso à informação enfrentadas pelos venezuelanos. Segundo ela, a população se informa principalmente através das redes sociais, YouTube e canais internacionais, já que os canais nacionais estão censurados e apenas transmitem a informação oficial do governo.
“Em Venezuela os canais nacionais estão censurados, não transmitem a informação. E só repassam a informação que se transmite pelo canal do Estado, que é a linha governamental que só diz o que convém ao governo”, explicou Zambrano. Ela acrescentou que muitas páginas de notícias independentes são bloqueadas, sendo necessário o uso de VPN para acessá-las.
Quanto ao número de vítimas da operação militar, Zambrano informou que não há dados oficiais, mas médicos independentes contabilizaram cerca de 90 pessoas feridas, principalmente nas proximidades do complexo militar onde ocorreram as explosões. Extraoficialmente, fala-se em 40 mortos, em sua maioria militares, mas o governo venezuelano apenas confirma que existem vítimas fatais, sem especificar números.