Quando o Irã bombardeou países que não estavam na guerra, a Arábia Saudita recorreu a um documento assinado seis meses antes — e o cenário... © Realidade Militar
Quando o Irã bombardeou países que não estavam na guerra, a Arábia Saudita recorreu a um documento assinado seis meses antes — e o cenário estratégico da região mudou de forma que Teerã não calculou.
A reunião que se tornou alvo
Em 19 de março de 2026, ministros das relações exteriores de países árabes e muçulmanos estavam reunidos em Riad, capital da Arábia Saudita, para discutir saídas diplomáticas para o conflito que consumia o Irã. O ministro turco das Relações Exteriores, Hakan Fidan, mantinha o chanceler iraniano na linha ao vivo durante a reunião — um gesto para que Teerã soubesse, em tempo real, o que estava sendo debatido.
Horas depois, mísseis e drones iranianos atingiram países do Golfo. O momento não foi acidental.
Segundo o Times of Israel, oficiais do Golfo acreditam que o Irã calculou que ataques contra a infraestrutura regional forçariam esses países a pressionar os Estados Unidos por um cessar-fogo imediato. A lógica era usar a dor de terceiros como alavanca de negociação. O resultado foi o oposto.
O que os números revelam
Desde o início dos ataques iranianos contra os países do Golfo, em 28 de fevereiro de 2026, os Emirados Árabes Unidos tornaram-se o alvo mais frequente. Segundo o Ministério da Defesa dos Emirados, o país interceptou e destruiu, até 28 de março, 398 mísseis balísticos, 1.872 ataques de drones e 15 mísseis de cruzeiro — todos disparados pelo Irã usando, principalmente, os drones Shahed, veículos aéreos não tripulados de ataque suicida fabricados em série e exportados também para grupos apoiados por Teerã na região.
Fumaça sobe após ataque de drone iraniano a depósito de combustível no Aeroporto Internacional do Kuwait, em 25 de março de 2026.
Um segundo oficial do Golfo resumiu a mudança de posição da região em uma frase, segundo o Times of Israel: “Encerrar a guerra com o Irã ainda em posse das ferramentas que está usando para atacar os países do CCG seria um desastre estratégico.”
O acordo que ninguém lembrava — até precisar
Em setembro de 2025, a Arábia Saudita e o Paquistão assinaram o Acordo Estratégico de Defesa Mútua. O tratado foi firmado em 17 de setembro, no Palácio Al Yamamah em Riad, pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e pelo primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif. No centro do acordo está um princípio estruturalmente semelhante ao Artigo 5 da OTAN: qualquer agressão contra um dos signatários é tratada como agressão contra ambos.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e o príncipe saudita Mohammed bin Salman, em Riad.
O Paquistão é o único país de maioria muçulmana com arsenal nuclear operacional. A linguagem oficial do acordo o descreve como um “acordo defensivo abrangente que engloba todos os meios militares” — formulação deliberadamente ambígua sobre o alcance nuclear do compromisso.
Em março de 2026, após ataques iranianos contra a capital e instalações energéticas sauditas, o ministro da Defesa da Arábia Saudita, príncipe Khalid bin Salman, ativou formalmente o pacto. O chefe das Forças de Defesa do Paquistão, marechal-de-campo Asim Munir, fez uma visita de emergência a Riad, onde ambos “discutiram a seriedade da situação de segurança resultante dos ataques iranianos de drones e mísseis contra a Arábia Saudita e deliberaram sobre medidas conjuntas para contê-los no âmbito do acordo estratégico de defesa mútua”, segundo comunicado oficial do Exército paquistanês.
O analista geopolítico saudita Salman al-Ansari declarou à rede canadense CBC, conforme reportado pelo Middle East Eye: “Se os sauditas decidissem entrar com força total… o Irã seria o maior perdedor, porque a Arábia Saudita ativará seu acordo bilateral de defesa com o Paquistão.”
O efeito que Teerã não previu
Os ataques iranianos contra países que não participavam do conflito produziram uma reconfiguração de alianças que Teerã buscava exatamente evitar. Países do Golfo como Arábia Saudita e Emirados Árabes ameaçaram retaliar contra o Irã, mas se mantiveram por ora aquém de ações potencialmente escalatórias. A direção política, no entanto, mudou de forma mensurável.
O assessor presidencial dos Emirados, Anwar Gargash, afirmou que a guerra precisa terminar com uma solução de longo prazo para a segurança no Golfo Pérsico, desestimulando um cessar-fogo que não alcance esse objetivo.
Do ponto de vista econômico, o impacto já é global. O tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz — corredor por onde passa parcela significativa do petróleo mundial — caiu drasticamente, e os preços do petróleo ultrapassaram US$ 100 por barril, chegando a US$ 114, os maiores valores desde a pandemia de Covid-19, segundo o Wikipedia. Analistas alertam para riscos de recessão se as interrupções persistirem.
O Paquistão, por sua vez, ocupa agora uma posição sem precedentes: tem fronteira de 900 quilômetros com o Irã, milhões de trabalhadores nos países do Golfo e um pacto de defesa formal com Riad que, pela primeira vez em sua história diplomática, foi publicamente invocado durante um conflito ativo. Segundo análise do Middle East Council on Global Affairs, o pacto foi projetado para ser ambíguo — mas essa ambiguidade foi consumida em uma única coletiva de imprensa do ministro das Relações Exteriores paquistanês, quando ele avisou publicamente Teerã sobre as obrigações do acordo.
O que estava desenhado como dissuasão silenciosa tornou-se, em semanas, o eixo central do debate sobre escalada regional. Se a Arábia Saudita passar de postura defensiva para ofensiva, o acordo prevê que Islamabad entra junto — e o Paquistão tem capacidade nuclear, 600 mil soldados ativos e uma fronteira direta com o país que está no centro do conflito.
Fontes consultadas: Wikipedia, Al Jazeera, Times of Israel, CNBC, Human Rights Watch, Middle East Eye, Iran International, Middle East Council on Global Affairs, Jerusalem Post, ICAN, Türkiye Today
Fonte: www.msn.com