O abate precoce ou de matrizes prejudica a reposição, pressiona o mercado pela crescente procura por gado para abate e gera aumentos internos

A estimativa é que o Acre possua ainda hoje cerca de 3,5 milhões de cabeças de gado, que movimentam um mercado anual de até R$ 1,5 bilhão, representando a maior fonte de renda do Estado.
A Tribuna

O aumento do preço da carne, hoje em torno de R$ 40,00 o quilo nos cortes traseiros, no estado, é ao mesmo tempo uma consequência do sucesso e da falta de planejamento da pecuária do Acre. A estimativa é que o Acre possua ainda hoje cerca de 3,5 milhões de cabeças de gado, que movimentam um mercado anual de até R$ 1,5 bilhão, representando a maior fonte de renda do Estado.

O crescimento da pecuária no Acre tem sido exponencial. Este fenômeno já havia sido detectado em 2008, quando o estado apresentava um crescimento anual de 5,2%, frente a um crescimento de 3,3% na Amazônia e apenas 1,1% na média do Brasil. As projeções da Universidade do Mato Grosso do Sul, muito comentadas no começo de 2012, estimavam que o estado alcançaria 4 milhões de cabeças apenas em 2031, que era considerado uma meta ilusória, mas que já está perto de acontecer quase uma década antes.

Um levantamento da Scot Consultoria, do Mato Grosso, assinado pela veterinária Marina Zaia, analista e pesquisadora de mercado nas áreas de boi, leite e grãos apontava no final de 2018, o Acre como dono do 14º maior rebanho bovino do país, terceiro da Região Norte, depois de Tocantins e Rondônia e maior do que estados como Rio de Janeiro, Ceará e Espírito Santo, com área bem maior.

Tamanho do rebanho bovino de corte comercial

O crescimento do rebanho acreano acompanhou o aumento paulatino da importância da região Norte na criação bovina e no mercado nacional de carne, como apontava o estudo da consultora, ressaltando a evolução por região entre 2010 e 2016. A região, com ênfase nos estados do Acre e Rondônia passou a representar, de 14 para 22% do rebanho nacional.

Falha de planejamento industrial

Entretanto, o sucesso da atividade bovina também revelou as falhas da estratégia da construção de um modelo integrado de industrialização, com frigoríficos, transformação e produção de embutidos, enlatados e outras formas de aproveitamento.

Hoje, os grande frigoríficos estão situados fora do estado, embora em regiões próximas, por falta de um planejamento que levasse em conta a incorporação de valor local à produção. A verdade é que há três anos, pelo menos, as matrizes acreanas estão sendo levadas sem controle para abate fora do estado, com os pecuaristas aproveitando para vender o máximo possível e aproveitar os crescentes preços do mercado.

Isso tem reduzido a oferta local de carne para os pequenos frigoríficos que ainda atuam no estado, para o mercado interno, sem condições de competir com os grandes. Tem também afetado o rebanho como um todo, com a indústria de carnes expandida muito além das possibilidades racionais de abastecimento, considerando as características atuais da pecuária do estado.

Com isso, foi intensificado o abate de vacas, o que diminui a possibilidade de reposição natural do rebanho. Um estudo aponta que são necessários em média pouco mais de cinco anos para a complementação do ciclo de reposição do gado levado ao abate., assim exemplificado

O abate precoce ou de matrizes prejudica a reposição, pressiona o mercado pela crescente procura por gado para abate e gera aumentos internos, alinhados à demanda nacional e internacional.

A situação, em vez de tender a se resolver, tende a se agravar, Com a certificação de área livre de aftosa sem vacinação, o Acre poderá vender sua carne livremente ao mercado internacional. Esse processo não foi acompanhado da implantação de um sistema de processamento da carne no próprio território acreano.

Pressão no consumidor

Com isso, a pressão para a aquisição de gado no estado para ser levado para abate fora e industrialização deve aumentar, com evidente pressão sobre os preços. É essa a base do estudo clássico de W. J. Huitt Yardley-Podolsky, Consultor em Administração Econômico-Financeira e um dos trabalhos mais citados na área de controle de mercado na pecuária. Ele aponta que o consumidor é o polo passivo do processo industrial e sobre ele caem as forças que determinam, a sua revelia, o preço da carne. O modelo do pesquisador se mostra ainda mais crítico na situação local, em que praticamente não há disputa de mercado entre frigoríficos, que formam um oligopólio perfeito, pressionando os preços para no açougues e o consumidor final, pois há uma mercado externo garantido.

São essas as razões para a alta indiscriminada da carne, em um estado onde o rebanho bovino tão diligentemente ampliado ao longo dos anos, vem sendo dilapidado por interesses imediatos. Tudo às custas do consumidor local, que não usufrui dessa conquista e para lucro de atravessadores e frigoríficos fora do estado, além e uns poucos pecuaristas locais, que simplesmente usam as terras acreanas para seu lucro, pouco dando em troca, uma vez que até o imposto é subsidiado ou simplesmente sonegado.

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